segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Doutores da Alegria humanizando os hospitais





No Congresso de Humanização Hospitalar aqui em São Paulo fiz uma entrevista com o Wellington Nogueira que contou sobre o Doutores da Alegria e sua atuação nos hospitais.

Victor José – Estamos aqui com o Wellington, do Doutores da Alegria, e eu queria comentar com você, há quinze anos atrás você começou com o Doutores da Alegria e hoje o Doutores da Alegria está aqui com o Viva e Deixe Viver (ONG) fazendo um congresso de humanização hospitalar. Como é que é isso?

Wellington Nogueira – É exatamente a oportunidade. É assim, toda ONG gera conhecimento e nós nos preocupamos muito em organizar esse conhecimento, mas você não pode ficar cultivando esse conhecimento no fundo do teu quintal, então você tem que disseminar. Eu acho que todas as ONG’s, hoje, estão tendo oportunidades incríveis de criar tecnologia social, de trazer inovações que podem inspirar segundo setor, podem inspirar governo, trazer soluções. Então é muito importante que a gente abra o espaço para disseminar esse conhecimento e criar espaços de conversa, espaços de reflexão pra promover mudanças pra melhor. A questão da saúde é uma questão extremamente premente. Quando a gente começou há quinze anos atrás, nos começamos a ter um feedback dos hospitais que falavam “Olha, a gente tá vendo que é possível ter alegria, ter leveza, sem a perda de foco, sem perda da seriedade, sem perder o objetivo que é curar”, então será que pode ter mais? A gente ouvia dos profissionais de saúde que a alegria humanizava o hospital. De repente a gente vê essa expressão “humanizar” rolar que nem uma bola de neve, ficar grande e, em 99, o governo lança o Programa Nacional de Humanização do Atendimento à Saúde, reconhecendo que tem muito espaço pra crescer e pra desenvolver na formação do médico e do profissional de saúde, na inovação no conceito de humanização, no olhar sobre a doença, no olhar sobre o oficio, no olhar sobre o paciente. E a nossa missão é levar alegria, e as pessoas geralmente entendem como sendo o riso, a gargalhada, mas o riso e a gargalhada são formas de você expressar alegria, porque na verdade nós entendemos que a alegria, ela começa aqui, no encontro entre duas pessoas, no olho no olho, em você olhar, ouvir e entender a necessidade do outro e agir pra suprir, e ai o outro vive o alivio “aahh, entenderam o que eu precisava, que legal”. Visto dessa forma, a alegria não é mais privilégio de uma dupla de palhaços no hospital, qualquer um de nós pode, da sua maneira, colocando em exercício as faculdades do olhar, da audição, do falar, do dialogar, pode gerar alegria. Eu entendo que esse é o anseio de todas as pessoas em seus ambientes de trabalho, de colocar mais alegria, de colocar mais leveza, de resignificar o trabalho da gente e o trabalho para o outro, com o outro, em prol do outro. Então o fórum, o congresso de humanização, o espaço de discussão pra nós hoje se tornou estratégico, disseminar conhecimento através de eventos como o congresso de humanização, porque nós estávamos lá testemunhando, mas nós não temos respostas e não somos solução, a solução vai vir de todo mundo conversar. Isso é tão rico, isso é tão gratificante, porque extrapola e muito e você aprende com as pessoas e eu acho que o melhor disso é que você constrói, a gente não sai com respostas, mas a gente sai com motivações pra promover mudanças. O congresso foi uma forma de fazer isso, o "feeling" do Doutores da Alegria, o documentário, foi uma maneira, não de promover a ONG, mas de levar para as pessoas que estão fora do hospital um pouco daquilo que mudou o nosso olhar sobre a vida. Todos os 47 artistas estão olhando pra vida e se relacionando com ela de uma maneira diferente, agora 47 artistas é muito pouco, a gente tem que dividir isso com um número maior de pessoas. Então eu penso que no Brasil hoje as ONG’s têm uma oportunidade muito grande de: habilidade de mobilizar recursos e fazer muito com pouco, gera inovação, gera inspiração , novas tecnologias e uma serie de oportunidade pra gente construir o país socialmente justo e equânime que a gente quer.

Victor José – Esse país e essa forma de construir não são tão fáceis assim, você deve ter muitos obstáculos, como o financeiro, a estranheza e a incredulidade do setor de saúde para com um projeto desses, pensando que possa não dar certo. O que eu falei faz sentido?

Wellington Nogueira – Faz, mas sabe porque, humanizar, tudo o que tem o lado humano remete a gente à subjetividade e a gente ainda é prisioneiro de uma cultura muito focada em resultados através de números que você conta. Eu me lembro também, com o Doutores da Alegria, quando eu comecei há 15 anos atrás, eu achava que era tão evidente a potência do trabalho que qualquer empresa, qualquer pessoa gostaria de contribuir com ele, mas a realidade é muito outra, não era assim, mas a gente foi indo, porque tudo isso sinaliza uma mudança de cultura e enquanto as pessoas não têm certeza de onde é que elas estão colocando os pés, elas não se sentem seguras. Então a gente tem que justamente usar a nossa criatividade pra poder ocupar cada vez mais espaço, poder mostrar, sensibilizar e mostrar como é importante fazer investimentos nessa área, tanto na área social quanto no fomento das discussões que encaminhem pra mudanças, não só mudanças de cultura, mas mudanças de atitude, mudanças de gestão. E a área social, a própria expressão “responsabilidade social corporativa” é uma coisa muito nova, tem o quê, 10, 12 anos?! A gente ta começando a aprender, acho que é um brinquedo novo, mas é um caminho sem volta. No hospital eu aprendi com as crianças que você pode se apegar no que é problema, mas você pode também entender o que é o problema e se apegar, se prender ao que está bom. Baseado no que eu aprendi no hospital eu estou procurando trabalhar e agir dessa forma, ocupar os espaços. Eu acho que as ONG’s bem geridas têm condições de ser modelo pra novas formas de gestão, novas formas econômicas, novas formas de gerar recursos, de ser exemplo. Ao invés da gente pegar o modelo americano, o modelo europeu, a gente aprender com eles e criar os nossos modelos. Eu trabalho hoje, sinceramente, pra apagar o fio entre segundo e terceiro setor, porque a gente está vendo que é cada vez mais insano separar, compartimentar... o quê que de bom do segundo pode migrar para o terceiro, o quê de bom do terceiro pode migrar para o segundo, as transformações vão estar ai. Hazel Henderson já fala isso, quando ela fala do PIB invisível, a gente olhar lucro de uma outra forma, resultados de uma outra forma. As ONG’s estão aí para isso, de outra forma a gente só vai crescer em numero de ONG’s e mudança efetivamente, o quê que vai acontecer?A partir dessas cooperações, a partir dessas ações mútuas a gente pode inspirar governos a mudanças, rediscutir impostos, rediscutir legislações. A sociedade tem que ser um organismo mudando, mas o que as ONG’s podem propor, tendo a flexibilidade de criar novos modelos, é que essas mudanças vão ocorrendo e sempre olhando por um outro ângulo, não pegando modelos e arremedando, como por exemplo, pegar um modelo empresarial pra gerir uma ONG, mas criando os modelos. Será que eu posso gerar recursos com base em desenvolvimento humano e promover mudanças? Quem são os meus acionistas? Pra uma ONG, quem são os acionistas? Será que são as crianças que estão no hospital, por exemplo? Quando você começa a olhar o sistema por outros pontos de vista é que você começa a ter oportunidades de gerar mudanças.

Victor José – Mudar o paradigma, né?

Wellington Nogueira – Exatamente, mudar o paradigma pra gente poder implementar ações que mudem esse país. Todo mundo tá cansado, porque que tanta gente ta falando tanto em alegria, emocionalidade, inteligência emocional? Porque as pessoas não estão satisfeitas do jeito que as coisas estão. Agora, o que a gente não pode é se acostumar com isso, a gente não pode dizer “ah, é assim” e não fazer nada e só reclamar, porque reclamar não muda nada, dó não muda nada, ficar penalizado não muda nada, o que muda é efetivamente a ação, ação consciente que vem de “eu não estou contente com isso e eu quero mudar esse história”, e a gente ter consciência também que ssa mudança (risos) ela não vai ser pra já, ela é construída, mas a gente vai mudando e construindo um futuro melhor pros nossos filhos, pros nossos netos. Mas eu tenho muita esperança no Brasil, mas a gente precisa ter essa noção, porque não adianta reclamar dos políticos se a gente votou neles, não adianta reclamar que tem fila nos hospitais públicos se a gente não faz nada pra clamar de volta a força da saúde pública como usuário e exigir que o serviço aconteça, a gente tem que fazer. E o bom das organizações da sociedade civil é que muitas das tecnologias vêm da prática, vêm de fazer primeiro e depois vamos documentar e vamos organizar.

Victor José – O Observatório das ONG’s agradece tudo o que você falou e compartilhou com a gente e a possibilidade de estar aqui, vendo esse evento, aproveitando desse evento, aprendendo com esse evento e, tentando, na democracia da mídia, passar isso pra muitas mais pessoas e organizações que estão nos assistindo. Obrigado!

Wellington Nogueira – Eu que agradeço. Muito obrigado Observatório das ONG’s pelo espaço, pela cobertura do evento e que a gente possa estar juntos muitas vezes, trocando conhecimentos, experiências que possam ser disseminadas pra construção de um Brasil melhor. Obrigado.
Uma das coisas que o Welington comentou comigo é que devemos fazer como as crianças, elas não olham para o que está acontecendo de ruim, não ficam murmurando, elas simplesmente concentram suas energias nas coisas boas e se divertem com isso.

domingo, 5 de agosto de 2007

Fórum Social chega aos EUA





Foi em 27 de junho deste ano e terminou em 1 de julho e aconteceu lá na terra dos americanos(as) do norte o primeiro evento do FSM. Parecia que não poderia dar certo, mas deu, existe nos EUA um movimento de cidadania que reconhece a importância do resgate dos excluídos americanos e do mundo. Lá as pessoas que participam dos grassroots, a base popular, estiveram presentes para afirmar que outro mundo é possível e um outro EUA também.

Cândido Grzybowski, sociólogo e diretor do IBASE conta que os participantes eram da base da pirâmide social, dos movimentos negros e indígenas, dos movimentos por justiça ambiental, dos aguerridos grupos de migrantes legais e clandestinos, do renovado movimento de trabalhadores por empregos com justiça, das famílias de pobres e sua campanha nacional por direitos e inclusão. Era gente com problemas e propostas que lembram os(as) excluídos(as) de todos os povos do planeta. A determinação desses grupos é notável. Mesmo com poucos recursos – pois os apoios conseguidos com os tradicionais financiadores foram pequenos –, eles demonstraram muita vontade e capacidade para organizar um FS impactante pela ampla e diversa agenda de temas postos em debate.

Ele também conta que Atlanta é a terra de Martin Luther King, líder negro da luta por direitos civis. Para os participantes do fórum, Martin Luther King é uma inspiração. Além disso, Atlanta, capital da Georgia, no Sul dos EUA, lembra a nova pobreza em meio à riqueza excludente. Próxima a Nova Orleans e da devastação provocada pelo Katrina, Atlanta abriga alguns dos grupos pobres de lá expulsos pela indiferença dos governos diante de seus dramas. Claro, Atlanta também é o berço da Coca-Cola, o refrigerante símbolo de uma globalização e de um estilo de vida combatidos pelo FSM. Aliás, além da passeata de abertura no dia 27, sob forte sol, com uns 5 a 6 mil participantes, uma outra foi organizada, no dia 30 de junho, até o QG da Coca-Cola. Mesmo pequena, a forte vigilância policial revela o temor do establishment diante da ousadia dos militantes da Campanha dos Pobres por Direitos Humanos e Econômicos (PPEHRC).

O Fórum Social Mundial tinha que passar pelos EUA e foi um marco pela luta dos Direitos Humanos em todo mundo, apesar da pouca e distorcida cobertura da mídia de mercado, foi importante saber que existe vida inteligente e humana naquela nação que invade países a revelia e e se coloca como dona do mundo.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Petrobras fala sobre relacionamento com ONGs

Ontem, dia 12 de junho, dia dos namorados nada mais apropriado do que falar sobre relacionamento. Aconteceu no Rio de Janeiro o lançamento do Balanço Social e Ambiental de 2006, Wilson Santarosa, gerente executivo de comunicação da Petrobras, concedeu um entrevista exclusiva avaliando a importância das ONGs na expressiva subida da colocação da Petrobras no raking da avaliação anual da pesquisa mundial "Reputation Institute". A performance da Petrobras foi surpreendente, ela subiu de octagésimo terceiro para oitavo lugar no raking. Santorosa disse: Sem a participação das ONGs nós não teríamos alcançado o que nós alcançamos, é um prêmio e ao mesmo tempo é mais responsabilidade porque para subir até aí não foi muito difícil, mas para permanecer aí nós vamos que ter um relacionamento muito grande com todo o terceiro setor e que as ONGs nos fiscalizem é isso é ótimo para nós porque nos faz trabalhar para garantir essa posição ou melhorar a posição nossa. No relaciomento com as ONGs, eu acredito que tem muito a desejar ainda, da nossa parte, mas creio que avançamos bastante, somos mais transparentes, mais próximos das ONGs e das comunidades e a nossa intenção é abrir cada vez mais para que as ONGs tenham acesso àquilo que não tinham antes, eu acho que já está bem próximo do ideal mas ainda falta alguma coisa e eu acredito que seja da nossa parte. Nós vamos tentar melhorar.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Próximo Fórum Social Mundial, em 2009, será em Belém do Pará


Foi decidido na reunião do Comitê Internacional na Alemanha que o próximo Fórum Social Mundial Unificado será em Belém do Pará. Várias cidades se propuseram a receber este movimento como Indonésia, África e Coréia do Sul, mas o Brasil saiu vencedor.

Belém, fundada em 12 de janeiro de 1616, é a capital e maior cidade do estado do Pará, segunda maior cidade da Amazônia brasileira. A Metrópole da Amazônia é conhecida como Cidade das Mangueiras devido à quantidade de mangueiras encontradas em suas ruas. A cidade é a principal entrada da região devido a sua privilegiada localização geográfica foz do rio amazonas e extremo norte da malha rodoviária nacional.

Alguns dos famosos que nasceram lá: Jane Duboc, Lúcio Mauro, Leila Pinheiro, Norton Nascimento, Rosa Maria Murtinho e a super conhecida Fafá de Belém.

Um dos fatores que influenciaram na escolha foi a questão do aquecimento global, afinal o melhor lugar para a discussão deste assunto é com certeza a região amazônica.

No ano de 2008 os Fóruns acontecerão em vários locais do mundo voltando a ser central em Belém no ano seguinte.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Terminou o Congresso de Negras e Negros


Aqui em Belo Horizonte o Congresso que aumentou união dos movimentos e ongs que defendem os direitos dos negros encerrou a primeira etapa das discussões para o fortalecimento das instituições envolvidas nesta temática.

A longa jornada de trabalho dos participantes e organizadores que desenvolveram no dia 21 até a madrugada do dia 22 o estatuto interno para condução dos trabalhos das entidades ligadas por este Congresso.

Como todo Congresso que conta com poucos recursos a organização foi o ponto fraco o que resultou em muitas reclamações dos participantes vindos de todo o país para discutir sobre os direitos do negros.

Podiam ser vistos jovens militantes discutindo suas idéias com os mais antigos que passaram por todo o processo de ditadura lutando pela causa negra, com por exemplo o Sr. Iedo Ferreira, fundador do MNU - Movimento Negro Unificado, que com os seus 74 anos partilhava sua experiência e a sua história. Ele fazia questão de sempre contribuir nos temas propostos com seu dinamismo e conhecimento.

Este Congresso, as vezes era preparatório para um grande Congresso e outras vezes era um Congresso definitivo, foi marcado também pela presença da religião. Muitos congressistas eram do Candomblé e manifestavam a sua religiosidade com cantos e danças nas plenárias ou em apresentações. As bandeiras das Pastoral do Negros da igreja católica e do Conselho de Negras e Negros Cristãos da igreja evangélica apareceram porém os seus rituais não foram apresentados.

O Congresso que começou com ato de lançamento no CREA, terminou no espaço da colonia de férias do Sesc em um bairro distante do centro de Belo Horizonte chamado Venda Nova.

Os depoimentos dos entrevistados serão colocados aqui em breve.

sábado, 21 de abril de 2007

Congresso de Negras e Negros do Brasil.









Aconteceu ontem, dia 20 de abril de 2007, o ato de lançamento para o Congresso de Negras e Negros do Brasil em Belo Horizonte - Minas Gerais. Várias entidades estiveram presentes, autoridades públicas e a Ministra Matilde Ribeiro da Secretaria Especial da Presidência da República para Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).











A abertura foi no auditório do CREA-BH e o hino nacional foi entoado de maneira criativa pelos artistas da ONG Pandolelê, Sassá e Marcim. Os artistas entoaram o hino com percussão corporal.











Em breve as entrevistas serão colocadas aqui.
Hoje será o segundo dia do evento que continuará no SESC - Venda Nova.

sábado, 7 de abril de 2007

Candido do IBASE e o desafio do FSM em Nairóbi




O Candido do IBASE, umas das ONGs que participou na cordenação de todos os Fóruns Sociais Mundiais, conta, bem a vontade, um pouco da história do IBASE e também da organização do FSM, seus problemas e as novidades.

Como o Ibase começou?

O Ibase é uma criação das pessoas voltando do exílio com a democratização no Brasil, Betinho, que é o mais conhecido, Carlos Afonso e Marcos Arruda. Eles no exterior mudam um pouco a própria experiência a própria cabeça e já não se preocupam mais em conquistar o estado como eram as visões da esquerda de antigamente, estão mais preocupados em organizar a participação da sociedade. E aí montam o Instituto para a Base, IBASE, que depois deu este nome complicado: Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, você tinha que decifrar a sigla, nós acrescentamos o Betinho depois da morte dele então ficou Instituto do Betinho, em memória ao legado, mas é uma criação de uma entidade de cidadania ativa pensando em como trazer as questões dos grupos excluídos, populares que reivindicam direitos de democratização da sociedade brasileira, que combate a desigualdade, trazer para a agenda pública. O IBASE é sobretudo um instituto, que faz pesquisa sim, mas não pela pesquisa, faz análises para construir questões que transformem isso em agenda pública em debate público, que motive a cidadania a reagir e que formule suas propostas.
Então Fórum para nós, por exemplo, cai bem no espírito do que é o IBASE.

O IBASE tem uma missão, um objetivo e realiza coisas de relevância que a sociedade acaba conhecendo, conta um pouco disso para gente.

O IBASE como missão é a mais substantiva democracia na sociedade brasileira, essa simplificadamente seria a missão, ou seja, todos os direitos humanos para todas e todos os brasileiros e brasileiras, esse é o princípio do IBASE.
Na história do IBASE a gente foi acompanhando muito a própria democracia no Brasil, um dos primeiros trabalhos conhecidos do IBASE foi tentar coordenar uma plataforma de reforma agrária, existiam movimentos, antes de existir o MST, antes da Contag ter isso, tinham as igrejas, então se fez a campanha nacional pela reforma agrária que foi dar no ministério da reforma agrária do governo Sarney, governo de transição. Depois o IBASE trouxe a questão das crianças de rua para o debate público brasileiro, as crianças de rua existem a muito tempo, mas fazer investigação e mostrar que este era um problema que a sociedade podia resolver, era inadmissível que não resolvesse. O IBASE trouxe estudos mostrando com a gente ao invés de resolver o problema matava as crianças, inclusive isso tudo era sobre o assassinato de crianças e adolescentes de rua. O terceiro foi a campanha contra a fome. A fome também é secular no Brasil mas transformar isso em agenda pública que vai em tudo isso, que está na história do país. A campanha da cidadania Contra a fome e miséria pela vida, deu em um ministério e hoje tem um conselho nacional de segurança alimentar e tem o bolsa família, vamos dizer, é isso que nós buscamos. O IBASE tem essa função. O IBASE também, um outro exemplo, atua na responsabilidade social das empresas como trazer isso para o debate público. Nós queremos empresas responsáveis no seu negócio. Esse é um outro exemplo de iniciativa do IBASE. Outra preocupação mais recente é o Fórum, a idéia não é do IBASE, mas o IBASE adere e traz a sua capacidade de mobilização que é fundamental sobretudo a relação internacional o IBASE era a ONG das organizações a mais internacionalizada pelo seu nascimento ser internacional que traz e viabiliza o Fórum, na formação de parte do comitê organizador do Fórum 1, 2 e 3, depois viramos uma espécie de secretariado internacional que hoje se chama grupo facilitador brasileiro do Fórum Social Mundial e que então eu estou em todas a edições, mas envolvido na cozinha do Fórum não só no evento, não sou só um participante. Estive duas vezes em Nairóbi no ano passado, respresentando o IBASE aqui e minha colega Moema que esteve comigo esteve mais vezes e veio antes ajudando efetivamente o grupo organizador e nós com apoio da Petrobrás mandamos 4 ou 5 pessoas do nosso secretariado de São Paulo, mandamos para cá, para ajudar na montagem do programa, na organização, trazer a experiência brasileira e socializá-la aqui.

Muito bom. Você falou um pouco da organização que nós buscamos compartilhar com nossos irmãos quenianos, como foi esta caminhada, porque a organização é gigantesca.

Foi uma longa caminhada no final do primeiro Fórum em Porto Alegre eu sentei com o Tauffik que é uma das principais pessoas na organização aqui do Fórum sentamos para pensar: Quando vamos chegar na África? Porque estavam 10 pessoas da África no primeiro Fórum e acho que chegamos a 250 ou 300 no Fórum de 2005, lá em Porto Alegre. Sempre é pouco, o Fórum se organiza em um lugar e tem que ser mundial então ele tem que ir ao mundo, e é esse o espírito daqui. Então nós virmos aqui foi um desafio, primeiro há esta divisão, porque social e civil vivem os dilemas que as sociedade vivem, nós somos divididos também, somos desiguais, todos esse problemas, então, construir isso, que não fosse um Fórum que aprofundasse as desigualdades e as tensões que existem aqui, foi já uma coisa. Primeiro nós não fomos para a África do Sul, porque todos são unidos contra a África do Sul, essa hegemonia a nível inclusive de sociedade civil. Já é um feito não ir para a África do Sul, mas também não é um alternativo que é o Senegal. Porque há os franceses e o ingleses aqui, nesta festa colonial, nós viemos no meio, ta no coração da África, está a esquerda deste continente, é o que tinha um sociedade civil, tem uma sociedade civil mais vibrante. Isso é uma condição, a autonomia do Fórum supõe que não somos nós a organizar e o comitê local e regional, no caso deles é regional. É um comitê que envolve, aqui o Nairóbi no Quênia, envolve Uganda, Tanzânia, Etiópia e Somália. É o Este, Leste da África, que está envolvido na organização, mas estamos dando o apoio total a eles. Eles tem iniciativa, tudo é deles, mas a discussão metodológica, enfim, estive aqui em setembro para escolher este lugar, porque era para ser no Uhuru Park, mas lá tínhamos que construir tudo que construímos em Porto Alegre, aí, haja dinheiro aqui em Nairóbi para fazer isso porque tinha que importar equipamento. Então aqui a infra-estrutura deste centro de esportes doado pelos chineses, porque a nova cooperação é chinesa no sentido de acesso a recursos naturais, isso foi tudo doado pelos chineses e é um modelo igual, eles tem em vários países aqui na África, mas é subutilizado, afinal , porque eles são corredores e não jogadores de futebol então é um estádio meio...mas tem uma infra como nós nunca tivemos em nenhum Fórum. É o Fórum, nesse sentido, melhor, mas temos muitos problemas. Nós não conseguimos resolver o problema da inclusão. Ele tem várias iniciativas pequenas, o IBASE criou um fundo de solidariedade seu trouxemos 5: lá do lixão de Caxias, veio da cidade de Deus uma mulher, veio outra mulher do Boréu, veio que eram dois quilombolas, é onde o IBASE trabalha concretamente. Então, estão aqui no Fórum é uma experiência única para eles, mas vê o tamanho, tinham mais de 60 mil inscritos, aqui até ontem, inscritos, não sei quanto vai dar no final, inscritos, gente que pegou o crachá, assim mesmo claramente não veio o favelado de Nairóbi. Aconteceram manifestações aqui, mas a gente não via favelado de Porto Alegre em Porto Alegre, esse é um problema atravessado no Fórum, nós somos a elite das organizações. Como enfrentar isso. A discussão nossa também é veja funcionou mal, o evento é muito grande, nós temos que melhorar, não estamos sabendo lidar com isso. Por exemplo, os problemas de logística como língua, há uma questão política de o máximo de língua, a gente não consegue fazer do inglês para o português, francês, imagina fazer para o swahili, fazer para outras línguas africanas e um desafio monumental, então funcionou a tradução solidária, mas a solução compromete o diálogo, é e não é, porque também tem as linguagens visuais da manifestação, da roupa, da dança, do tambor, porque os sons africanos são incríveis e teve uma demonstração disso. Então aqui desde 60 mil, 50 e poucos mil, são africanos, o que deu uma cara nova para o Fórum, nós hoje podemos dizer somos de fato mundiais, a diversidade é maior do que a gente pensa, é mais complicada do que a gente pensa, mais difícil de lidar com isso. Essa universidade aberta que é um pouco a cidadania planetária, com eu considero o Fórum, ainda temos muita metodologia a desenvolver, assuntos práticos a desenvolver, tem uma questão de auto financiamento a desenvolver, enfim “n” coisas desta ordem.

Trazendo a questão para o regional local, como tem sido as discussões sobre as grandes temáticas como a fome, a pobreza, AIDS, migrações, genocídios. Como tem sido, no seu ponto de vista?

Era evidente que iríamos agregar novas dimensões da problemática, que para nós brasileiros, não é tão presente. A migração é claramente um tema, a AIDS, que também é para nós, mas aqui é dramática, está dizimando populações sobretudo nessa parte subsariana, tem países que baixaram em 20 anos a expectativa de vida. A própria África do Sul, que é mais desenvolvida, baixou em 20 anos, de 61 para 46 eu acho, mas tem alguns países como Zimbábue, Moçambique, que baixou para menos de 40 anos a expectativa de vida e existem cidades, vilas, que tem só órfãos quase os pais já se foram.
Então você tem um problema totalmente novo, mas tem o problema da dívida também que é mais dramático aqui do que lá. O problema da água, um tema que aqui foi muito importante. Os temas clássicos presentes não com as ênfases daqui. Um questão que é bem presente que é bem particular daqui da face africana e da resistência africana que é bem recente porque eles são independentes há 40 ou 50 anos os mais antigos, é muito recente tudo isso, então esta história de resistência a construção de entidades públicas, estado, institucionalidade, isso a gente tem muito a aprender com eles.
A religião, a espiritualidade, foi uma marca específica deste Fórum. As igrejas nunca estiveram tão presentes de forma tão orgânica como estiveram aqui. Elas tem um papel junto as populações mais excluídas fundamental. Elas são provedoras de muitos serviços educação, saúde, certa proteção social e elas estão transformando isso em questões de direitos e daí então o Fórum que trouxe esta dimensão que combina a história milenar da África com muita presença dessa mistura de religiosidade e cultura e identidade, essa síntese que é própria da África e acaba influindo no que nós somos como brasileiros. Nossa cultura tem muita sensibilidade igual, digamos assim, por causa da nossa origem, não tivemos Fórum assim, acho, tão marcadamente com estas novas questões.

Queria agradecer as suas palavras e compartilhamento da sua experiência comigo e com todos que irão conhecer tudo isso e agradecer também o apoio que vocês nos deram para estarmos aqui e parabenizá-lo pelo trabalho e dizer: nessa luta conte com a gente.

Muito obrigado, conte também conosco.